9 de agosto de 2019, por:

O povo e o batuque: uma quinta de samba em Nazaré

Batuque de um povo em ação. Foto: Luana Tazye.

São pouco mais de quatro horas da tarde e os tambores, cavaquinhos e microfones começam a ser afinados. A rua Coronel Cascudo vai se fechando naturalmente pela presença dos ambulantes em suas duas pontas e os primeiros entusiastas vão chegando pra garantir uma mesa. A roda está montada logo em frente ao famoso Bar da Nazaré, reduto boêmio do centro da capital potiguar. Além dos instrumentos e algumas garrafas de cerveja, completa a decoração uma imagem de São Jorge: vem muito samba por ai.

O bar da Nazaré já conta com uma tradição de 25 anos na região. A proprietária, Maria Nazaré Melo dos Santos, conta que quando abriu o bar na cidade eram poucos os estabelecimentos na área que trabalhavam neste formato na região, incluindo o bar de Seu Nasir, que posteriormente ficaria conhecido como o famoso bar da meladinha. Sobre o samba, ela diz como tudo começou. “A roda de samba era uma coisa mais intima entre amigos que frequentavam o bar e foi crescendo até virar o evento que é hoje, todas as quintas-feiras sempre lotado”, lembra.

Reconhecido por sua agitação cultural e por ser palco de encontro de artistas diversos da cidade, o bar da Nazaré se tornou uma espécie de ícone para a boêmia natalense. Porém, a própria Nazaré rechaça a alcunha de polo cultural. “Acho ótimo que tenha tantos clientes ilustres, pois isso sempre ajuda na divulgação do bar. Mas pra mim ele continua sendo isso mesmo, um bar”, finaliza.

Bar da Nazaré. Foto: Luana Tayze.

Eram meados de 2008 quando o samba passou a soar todas as quintas na frente do bar. Na época, a festa era comandada pelo grupo Arquivo Vivo – que já esteve aqui no Som Sem Plugs em duas ocasiões e podem ser vistas AQUI e AQUI. O sambista e compositor Carlos Britto é um dos remanescentes do grupo e foi ele que refundou o projeto chamado “Quinta que te quero samba” em 2016.

“Eu e Binho (reco-reco), que eramos do Arquivo Vivo, chamamos mais uns amigos para formar um novo grupo. A gente se juntou para tocar em um evento beneficente e foi dai que surgiu o Batuque de Um Povo”, explica Carlos que é também o responsável pelo imprescindível cavaquinho durante o batuque. O grupo, além dos dois, é formado por Diego Carvalho (violão), Ildo Oliveira (pandeiro), Elene Eferson (surdo) e por Buluka (voz).

Sendo a principal voz e a única mulher do grupo comandando o som do batuque, Maria José – mais conhecida por Buluka – conta como acabou entrando pra roda. “Eu sempre prestigiava o samba, e quando vinha as vezes era convidada por Carlos pra dar uma canja. Acabei entrando em definitivo há dois anos”, relembra. Entre as inspirações de Buluka, estão nomes consagrados do samba raiz como Alcione, Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra e  Leci Brandão. Ela conta que se sente privilegiada de estar no grupo e que sempre tenta trazer suas influências para o repertório.

Buluka comanda o batuque. Foto: Luana Tayze.

E por falar em repertório, além de homenagear grandes ícones do samba como Candeia, Cartola, Noel Rosa e Nelson do Cavaquinho, o Batuque de um povo também não esquece de reverenciar nomes do samba potiguar como o mestre Zorro e as escolas de samba das Roças, que já tiveram uma edição especial com o sambista Debinha Ramos AQUI no Som Sem Plugs. “Temos também composições minhas que vamos inserindo aos poucos”, Conta Carlos. Ele quem escreveu as duas canções que fazem parte deste especial: “Filha da Nação” e “Vó Maria Guiné”.

Quando chega as 20h o samba está no seu auge. A rua fica apinhada de gente que circunda a roda. A alegria do samba é contagiante e leva o público à uma experiência coletiva que traduz bem o que é a “brasilidade” e mantem viva a tradição do samba no centro histórico de Natal.

Contando com o apoio de estrutura apenas do próprio bar e passando o chapéu para cobrir algumas despesas extras, o Batuque espera um maior reconhecimento por parte do poder público no processo de revitalização do centro.  Seja como for, quem frequenta ou já foi, jamais vai esquecer uma quinta de samba em Nazaré.  E se você ainda não viu, confira abaixo a nova produção do Som Sem Plugs.