31 de julho de 2017, por:

Entrevista: Pedro Mendes e os trinta anos de “Esquina do Continente”

 

Pedro Mendes em participação no Som Sem Plugs.

Um disco que é um verdadeiro ícone da música potiguar, “Esquina do Continente” de Pedro Mendes, faz aniversário de 30 anos de lançamento em 2017. O álbum de estreia de Pedro foi lançado em meados de 1987, e um sucesso de vendas na época, além de emplacar vários hits nas rádios e catapultar a carreira do músico e compositor. Até hoje, três décadas depois, continua sendo uma referência na música potiguar, considerado por muitos o melhor disco de MPB já lançado por aqui.

Conversamos com Pedro,  uma das atrações desta temporada do Som Sem Plugs,  para saber mais sobre as histórias por trás do disco, que é uma verdadeira declaração de amor a Natal e ao Rio Grande do Norte em formato de poesia e música.

Como foi a produção do disco? Quem estava na banda e quais as histórias por trás do trabalho?

Consegui os recursos para o disco trabalhando na campanha de Geraldo Melo para governador do estado em 1986. Trabalhei durante toda a campanha, com muitos shows e cachês muito bons. Isso me deu recurso para poder investir, já que a produção do disco é minha. O esquina do continente foi gravado em novembro daquele ano em Recife. Tem histórias muito curiosas. Me lembro de chegar no estúdio Som Max e lá tava lotado, eu tive que fazer um esforço pra começar a gravar, estava muito ansioso pelo meu primeiro trabalho. O álbum conta com coprodução de Heraldo Palmeira, com quem tinha trabalhado junto em Recife e estava morando no Rio de Janeiro. Ele participou em algumas alterações no disco, que foram gravadas em um estúdio na Central do Brasil, além de também fornecer a parte gráfica do LP, prensagem e uma participação vocal em “Linda Baby”. Catorze músicos participaram da gravação, sendo quase todos daqui, de fora apenas dois percussionistas baianos, Marcos Lovo e Ubajara, que vieram do Rio. Vilen de Vale, Raquel Gosman e Joãozinho do Grafith fizeram back vocal nesse trabalho. Como baterista levei o Bauru, grande instrumentista que não mora mais aqui, Paulinho percussionista de Caicó para dar uma força nessa parte, Roberto Taufic na guitarra e alguns arranjos, o baixo foi feito por Aluizio “Di” Brito, ex banda Cantocalismo, que também morou muito tempo fora, e os teclados são do maestro João Franklin Novaes que também participa nos arranjos. A memória é de muita satisfação, pois é talvez um dos primeiros discos de artista de MPB da minha geração, muito premiado e muito marcante. Até hoje é o disco que eu mais vendo.

Qual foi a repercussão na época, sendo um dos discos mais vendidos na capital potiguar?

A repercussão foi muito boa, muito forte. Lembro que em algumas lojas ele chegou a ser o mais vendido durante um período. Chegou a ser vendido na antiga loja chamada “A modinha” na Av. Princesa Isabel, lá ele só perdia para o Chiclete com Banana, em vendas por dia. Foi dai que ele começou a repercutir fora. Me levou para vários festivais, viagens por todo o Brasil, fazendo shows. Também foi muito tocado em rádio, as FMs 96 e 94 tocavam bastante. O disco tem composições minhas, parcerias com Sueldo Soaress, uma música de Babal e outra de Santa Rosa Castim, que hoje é procurador do município. Os grupos da noite tocavam as músicas do disco nos bares. Pra mim, era como ter um cartão de visita do nosso estado. Tínhamos um LP de prestigio, um produto que mostrava o talento da nossa terra.

Natal é a grande musa inspiradora do disco, está presente em grande parte da obra. Foi uma ideia deliberada esta homenagem ou foi algo que acabou surgindo?

Arte da capa do LP “Esquina do continente”.

Sempre foi muito forte pra mim o encanto com a cidade. Esse ufanismo vem desde menino. E desse encantamento que comecei a compor canções como “Linda Baby”, “Esquina do continente” e “Uma vez”, que estão no disco, e falam sobre Natal. É um disco muito potiguar. É uma coisa que foi surgindo, mas tinha pertinência a esse encantamento, inclusive o próprio nome do disco é uma expressão que é a nossa cara. É uma expressão que não existia, oficialmente, até então. E somos de fato a esquina, pois lá em Touros a América dobra. Dei esse nome, não só porque já tinha a música com esse titulo, mas porque era uma expressão universal e o disco tinha essa cara.

Linda baby acabou sendo o destaque do disco e foi até tornada patrimônio imaterial da cidade. Como foi que surgiu a canção? Esperava que ela se tornasse o hino não oficial de Natal?

Linda Baby, quando consigo olhar como uma obra, é um fenômeno potiguar. Não sabia que ia ser isso quando a compus. A história, que já contei algumas vezes, foi inspirada por uma prima de uma namorada minha que não gostava da cidade. Eu tinha dezoito anos quando a compus, já tinha muitas frases da música na cabeça como “essa é uma terra de um deus mar”, sempre pensava nesse visual de Natal, sol e céu. Mas quando eu compus eu não tinha a minima ideia que poderia se tornar tão popular e emblemática para a cidade. Na época, além de “Linda Baby”, outras do disco tocavam muito nas rádios, como “Brilho de Uganda”, “Alegres Meninos” e “Esquina do Continente”. E depois Linda Baby foi se tornando um marco nos meus shows. Teve ocasiões de chegar a locais que eu jamais imaginei que conhecessem a música, como uma vez num bar em Manaus, que estava em ocasião de um festival, e um musico local tocou a musica na integra, ao saber que eu estava lá, isso no inicio dos anos 90. E tem histórias da música por todo mundo, é uma musica que se tornou muito conhecida. Vou a escolas públicas, centros infantis, e até até em escolas de músicas para dar pequenas palestras, entrevistas, muito graças ao sucesso de Linda.

O que mudou na esquina do continente nesses 30 anos?

Natal teve um crescimento urbano inevitável. Deve ter hoje o dobro da população do que tinha há 30 anos. Mudou muita coisa que eu não gostaria que tivesse mudado. Principalmente em relação a vida noturna da cidade, ao que se procurava enquanto música popular na época e que hoje já não tem tanto espaço. Embora hoje em dia existam editais de incentivo que ajudam a tocar projetos, muitas vezes que não são encabeçados por músicos. A violência piorou muito, e isso é algo que me preocupa bastante. Mas musicalmente falando, pra mim, nessas três décadas, houve uma evolução, principalmente no domínio do instrumento, que consigo executar melhor e novas composições, inclusive com novo trabalho para sair em breve.

Você acredita que o disco teve o reconhecimento que merecia? Natal sabe valorizar sua arte?

Dessa parte não tenho que reclamar. Mesmo antes do disco já havia um carinho da cidade e do estado por mim e depois do lançamento isso foi algo que aumentou. Contei com uma força do ex-senador Carlos Alberto na prensagem do disco, pois estava com carência de matéria prima na época, e foi através dessa ajuda que consegui prensar em um tempo melhor, senão ia demorar muito. O disco inclusive veio com o selo Ponta Negra, e na sequencia foi até produzido um videoclipe para Linda Baby e que era exibido o tempo todo na TV. Existe um reconhecimento do meu nome, da minha história e do disco. Mas também existe muitas barreiras, principalmente em relação ao apoio ao artista. Mas posso dizer que estou num período em que me sinto maduro, produzo até melhor que antes, me sinto mais seguro e isso poderá se refletir nos meus próximos trabalhos.

Olhando pra trás, com toda a experiência dessas três décadas, mudaria alguma coisa no disco?

Se eu fosse produzir o Esquina hoje, acho que não mudaria muita coisa. Apenas talvez em relação a aspectos técnicos, qualidade de áudio, introduzir modernidade no trabalho. Equipe talvez também não fosse a mesma, mas o repertório seria o mesmo, que era o que eu tinha. Isso não mudaria. O que mudou mais em mim foi a questão da idade, superação de períodos nebulosos, mas graças a deus estou bem.